UM COCHILO DE PORTUGUÊS QUE CUSTOU R$1,5 MILHÃO

20/01/2015 09:17


Na era do e-mail, o domínio da comunicação escrita se tornou tão importante quanto aquela
fluência no inglês, sustenta a consultora Ana Paula Mira

Houve uma época dentro das empresas em que o grande diferencial era a capacidade técnica. Investiu-se em cursos, técnicos e profissionalizantes, para atender à demanda do mercado. Logo depois, foi a vez da língua
estrangeira. O domínio de outro idioma era a porta de entrada para excelentes vagas. Mais uma vez, várias escolas de idiomas proliferaram, organizações custearam parte de cursos de inglês, espanhol ou qualquer outra língua que fosse importante para o segmento.

Hoje, quando se questiona o que diferencia os candidatos na procura por uma colocação, o que se ouve dos recrutadores é algo inimaginável para alguns anos atrás: os responsáveis pela contratação querem
alguém que saiba português. Sim, querem alguém que tenha uma ótima fluência na comunicação oral e que, especialmente, escreva bem.

Se no passado essa habilidade foi negligenciada, hoje é fator determinante para conseguir uma colocação. O que motivou esse cenário foi, principalmente, o surgimento da internet e, mais especificamente, do e-mail. Aqueles que antes eram acostumados a resolver tudo oralmente passaram a ter que escrever em mais de 90% do seu tempo. Negociações, prospecção, gerenciamento, atendimento: tudo passa pela comunicação escrita.
Sem domínio dessa modalidade da língua portuguesa, tem sido cada vez mais difícil conquistar um emprego ou manter-se nele.

Entre os principais problemas detectados dentro das organizações, estão, nesta ordem, clareza, objetividade e escorregões na aplicação de regras gramaticais, como concordância e pontuação. As falhas prejudicam a leitura, interpretação e também a compreensão da mensagem. Algumas histórias relatadas por líderes e gerentes mostram quanto se perde quando alguém de sua equipe tem dificuldades em se expressar por meio do texto
escrito. Uma delas, inclusive, foi a história de um analista comercial que, por conta de um e-mail mal escrito, perdeu o emprego por ter causado confusão ao redigir uma proposta comercial. Pelo confuso texto, entendia-se que o cliente teria 10% de desconto no montante final da compra, apesar de 5% ser o máximo de
desconto que poderia ser concedido. Confusão criada, as etapas seguintes foram tentativas de conciliação. Após muita conversa com a gerência e até com a presidência, o cliente achou melhor desfazer o negócio. O detalhe estava no valor: aquela era uma negociação de R$ 1,5 milhão, quantia que foi perdida porque o e-mail não foi claro o suficiente para o ex-futuro cliente.

Apesar de essas serem histórias comuns, há muitas empresas que consideram o serviço de consultoria em língua portuguesa desnecessário. Não acham importante capacitar seus funcionários com cursos de
aperfeiçoamento de escrita, técnicas de oratória ou de revisão gramatical. Muitas vezes, infelizmente, é preciso passar por uma situação como a citada para as organizações procurarem ajuda.

O ideal, entretanto, é trabalhar de forma preventiva e não esperar que alguma "bomba" estoure devido a um problema de comunicação. Os cursos que têm como objetivo melhorar a escrita de colaboradores podem evitar que negócios se percam ou que a empresa tenha uma crise de imagem perante seus diferentes públicos. Com certeza, a reparação da imagem e a reconquista da credibilidade são processos muito mais caros do que o
investimento que se faz nesse tipo de treinamento. Por serem valores intangíveis, imagem, credibilidade e fidelidade são conquistados com trabalho árduo e de longo prazo, mas podem ser rapidamente destruídos se a comunicação da empresa é ineficiente, confusa e cheia de erros.

*Ana Paula Mira é diretora da Toda Letra Consultoria em Língua Portuguesa, de Curitiba.

Lido em20/01/2015>

http://amanha.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8267:um-cochilo-de-portugues-que-custou-r-15-milhao&catid=35:home-2&Itemid=135

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